Fotos: Tiago Petrik
Sabe aqueles dias que você precisa de um bom drink?, e quando digo drink, denuncio que estou mulherzinha, daquelas carentes e fragilizadas, que não brindam com champagne nem cerveja. Preciso de uma bebida transparente com frutas e gelo porque quero ficar dormente e amável.
As amigas sumiram. Está tarde demais pra sair de casa assim, do nada. Estou fora de área, em Botafogo. Decido ir ao clássico restaurante oriental da Rua Farani. Estive várias vezes ali em momentos diferentes de vida, pra comemorar uns dois dia-dos-namorados, uns três de finados, pra cantar no karaokê… Ao lado abriu um outro japonês, que também serve rodízio da comida mexicana. Isso me deixa meio louca. Amo as duas culinárias, mas a possibilidade de tê-las juntas é uma orgia muito trabalhosa. Quem sabe outro dia.
Saio da faculdade e o relevo irregular de Botafogo está molhado de uma chuva que caiu mas não vi. O chão espelhado reflete as luzes amareladas dos prédios. A Farani está lotada de estudantes, e minha ignorância desportiva mais uma vez se manifesta: há um jogo superimportante do Flamengo, a julgar pela quantidade de pessoas e ânimos. Sigo pela calçada mais vazia, que é a do meu velho conhecido Miako, o restaurante que sonhava acordada no primeiro parágrafo. Retiro o celular do bolso e dou a última chance para algum desesperado se manifestar, mas o sinal está morto. Pronto, é o fim e o prenúncio do jantar. Abro a porta e um gatinho dourado me dá um boas-vindas digital em japonês enquanto a garçonete simpática prontamente intui “Uma pessoa?”. Sim, sou uma pessoa. Quero sentar no balcão. “Fique à vontade para escolher uma mesa”, e vejo nos olhos dela que provavelmente mulherzinhas ficam meio fragilizadas de sentar no balcão sozinhas. “Balcão”, repito. Adoro balcão. Adoro sentar com coloridos filés de peixe à altura dos olhos.
Peço um sashimi e mastigo do lado direito da boca (ver coluna passada). Me sinto clandestina, pois estou há uma semana à base de canja e não avisei meu companheiro que furei a largada da comida de verdade.
O celular está mais morto do que nunca e começo a me sentir aliviada. Paro de pensar nas respostas que aguardo e agradeço a mim mesma por ter chegado até ali. A garçonete, vestida de gueixa mas com rosto meio indiano, decora os pedidos sem anotá-los e isso me fascina. Ela sorri largo. Atrás de mim, uma família tipicamente japonesa conversa animadamente em japonês. A filha é uma adolescente que parece saída da Estação de Harajuku, com sua maquiagem rosa. Ela é tão bonita que fica impossível não olhá-la. A mesa explode em risos fragmentados, ha-ha-has quebrados em mil pedacinhos. Cartazes, fotografias de pessoas e comida com legendas em caracteres indecifráveis cobrem as paredes. Uma seqüência de fotos particularmente engraçada de um senhor oriental numa paisagem terrosa jogando golfe desliga o laço com o Brasil. Não é o drink, pois esqueci totalmente dele. Até eu sou meio japonesa, penso, inocentemente. Só não engano o pessoal da mesa de trás. Eles explodem em risos novamente. Gritos ensurdecedores de “gooooool” vindos do lado de fora me tiram do transe.
É impressionante como a cultura brasileira e oriental convivem tão harmoniosamente. Um povo é, literalmente, o oposto do outro, com valores totalmente diferentes. Quem fala da pontualidade britânica não conhece a pontualidade japonesa.
A imigração japonesa no Brasil é certamente um dos eventos mais bem-sucedidos e menos prováveis do século XX. Nós somos a maior colônia fora do Japão. Alguém poderia imaginar uma coisa dessas?
Olho a louça exposta atrás dos sushimen de olhos amendoados. As formas, cores e pinturas são tão sensíveis que o lado mulherzinha suspira. E que ideia maravilhosa servir comida em barcos! Penso no Kasato Maru, o primeiro navio a trazer os imigrantes. Penso naquele povo chegando ao nosso país, depois de meses ao mar, trazendo bandeiras bordadas do Brasil e do Japão. Penso em tudo que esse povo maravilhoso fez pelo nosso país.
Um brinde ao Kasato Maru!
P.S.: A história da imigração japonesa no Brasil é muito interessante. Pesquise se tiver um tempinho. Recomendo, além das fotos do próprio RIOetc, que são incríveis, esse site: http://www.imigracaojaponesa.com.br/











































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