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Danislau também é escritor

Rio de Janeiro, 20|12|14

[DJ Galalau]

O nome dele é Danilo Monteiro, pesquisador e professor de literatura. Mas Danilo é também Danislau, ou antes Danislau Também, compositor e vocalista da banda Porcas Borboletas e (também!) escritor. Confuso? Talvez. Mas quem trilha as páginas de Hotel Rodoviária, segundo livro de Danislau, para seguir os passos tortos (e hilários!) de Jim da Silva, o alter ego tupiniquim de Jim Morrison que mistura sexo, profissões nada ortodoxas e poeira de estrada, vai encontrar o fio da meada do mundo de excessos criado por Danislau para seu personagem que nasce como uma lenda entre os rincões do Texas, México e até mesmo o Rio de Janeiro.

E foi aqui que na última quarta-feira, na Audio Rebel, em Botafogo, Danislau encontrou os amigos Botika e da banda Do Amor para celebrar o lançamento oficial de Hotel Rodoviária na cidade pela qual ele nutre “paixão total e absoluta”. O livro tem como destaque o projeto gráfico do escritório LuOrvart Design, inspirado em pop art e os filmes de faroeste. Na véspera do show, troquei uma ideia com Danislau via Skype, que acabou indo além de Jim da Silva, o “padre guapo” e maconheiro, juiz de boxe, narrador de striptease e líder da banda fictícia Dudu Eat Yourself.

[Galalau] Como vai, Danislau? Pra começar, me explica o codinome Também.

[Danislau] Eu curto mudar de nome, dá uma sensação de novidade. É como escovar os dentes, refresca a alma. Mas como gosto de mudar já enjoei também do “Também” (risos).

Ouvindo o último disco do Porcas Borboletas encontrei a faixa “Todo Mundo Tá Pensando Em Sexo”, que completa com “mas disfarçando muito bem”. Já em Hotel Rodoviária, o sexo é intensamente presente. É um tema recorrente para você?

No meu entendimento de mundo, tudo gira em torno do sexo, talvez porque seja um elemento da natureza humana presente em todos nós ou um dado determinante da nossa cultura. Em Hotel Rodoviária, o Jim da Silva vive de forma muito intensa, como se a vida fosse uma eterna trepada, uma escalada no Himalaia, uma descida de rapel ou bung jump, e o sexo diz respeito diretamente a esta intensidade. Mas o sexo incorpora também o carinho e a violência no trato mais radical, no embate de dois corpos que juntos se entrelaçam. O Jim é simplesmente um cara do mundo contemporâneo que se deixa levar por esta energia sexual, mergulhando numa radicalização do estar vivo.

E falando em Jim Morrison, de quem seu personagem pega o primeiro nome emprestado, ele é uma grande influência para você?

Eu tenho que confessar que curto algumas coisas do The Doors, mas que não manjo tanto assim. Às vezes ainda me soa picareta toda aquela pinta de sex symbol do Jim Morrison apesar de ele ter composições fortíssimas como “The End”. Mas o Jim da Silva é a incorporação do Jim Morrison por conta do arquétipo do roqueiro que tanto me fascina, da radicalização do estar vivo, do vigor e da energia que existia nele. E assim como Morrison tivemos também Kurt Cobain, Amy Winehouse, Cazuza, Caetano Veloso…

Você considera Caetano rock and roll?

O rock and roll é muito mais que um estilo musical. Rock é energia, é subverter a ordem, é perturbar, é lidar sem pudores com os totens erguidos pela sociedade. Eu considero Caetano Veloso, Luís de Camões e Beethoven tão roqueiros quanto Ozzy Osbourne.

Percebi em “Hotel Rodoviária” um clima estradeiro como roteiro de road movie ou, ainda, um pouco da geração beatnik de Kerouac e o livro “On The Road”.

Legal você falar disto porque eu me lembro de “On The Road” até hoje, foi um livro que comecei a ler em Uberlândia, minha cidade, e fui terminar no quarto de um hotel velho em Goiás. Eu sempre gostei muito da poesia de estrada. O Porcas Borboletas é também uma banda estradeira, já passamos por muitos lugares do país, lembro dos postos de gasolina, hotéis velhos… E ainda de filmes de Win Wenders, Tarantino, essa coisa de unir vários pontos de referências psicodélicas, da influência da língua inglesa, do Texas… Nós fomos bombardeados por toda esta cultura pop. Daí quis trazer estes versos com um quê de picaretagem aproximando da nossa realidade brasileira e de tudo isto que nos constitui, é isso o que o livro aglutina.

O quanto “Hotel Rodoviária” tem de Danislau e vice-versa?

Os amigos comentam que tem muito de mim ali. Mas acho que produzi uma narrativa com certa visão de mundo que não necessariamente é a minha mas que eu admiro, uma visão que valoriza a liberdade de comportamento. Mas é somente uma sugestão de como eu enxergo as coisas, algo com o qual eu conseguiria me associar e que eu assino embaixo, literalmente.

Falando de música, por que o lançamento na companhia do Botika e a banda Do Amor?

Do Amor é uma das minhas bandas favoritas há muito tempo, eles têm uma liberdade de visão e poesia fascinantes, música com pensamentos bem articulados, com algo a dizer de força e beleza que pra mim é lindamente perturbador. Já com o Botika nos aproximamos nos últimos tempos, é uma figura humana incrível, sou apaixonado pelo manejo que ele tem daquilo que é arte e sempre com muito profissionalismo.

Como é sua relação com o Rio de Janeiro, como você, um mineiro que vive em São Paulo, enxerga a cidade e os cariocas?

Eu tenho paixão total e absoluta, fixação com o Rio de Janeiro. Essa cidade é uma vitamina, eu vejo as pessoas com uma força criativa, uma fagulha subversiva que é um patrimônio cultural brasileiro. A música e cultura carioca desde os anos 70 até hoje é uma das coisas mais interessantes que conheço. Eu tenho devoção pela irresponsabilidade dos músicos cariocas que “passam a mão na bunda” da música brasileira, os artistas daí conseguiram articular uma excelência técnica com a poesia que é inigualável. O Rio de Janeiro é sempre uma farra, uma efervescência, a noite é sempre um bater de tambor dos mais arretados, o carioca é o cara mais gostoso do mundo! Eu faço questão de ir à cidade uma vez por mês, dou um passeio sem precisar ir a nenhum lugar específico. Mas o que sempre procuro fazer é tomar um açaí no Cantagalo, aquelas vielas, a lógica fascinante da favela. Eu tenho paixão pelo morro, pela Mangueira, o Vidigal, Dona Marta, a zona norte da cidade, o Méier. Eu vou para o Rio e tenho dificuldade de ir embora. Aí, na cidade, a minha respiração muda, o jeito de falar, o jeito de vestir, o horário de comer e dormir. O Rio me leva para um lugar muito gostoso e diferente.

O terceiro e último disco do Porcas Borboletas foi lançado em 2013. Tem alguma novidade vindo por aí?

Já são 15 anos de banda e hoje em dia cada um está morando num lugar do Brasil. O baterista em Florianópolis, eu e meu irmão em São Paulo, e os outros três permanecem em Uberlândia. Deve ter algo novo em 2015, estamos desejando este disco. Como diz Arnaldo Antunes, ”o desejo é tudo”. A gente deve ir pra uma fazenda, beber uma cervejas artesanais, o Chelo (baixista) produz uma cerveja ótima chamada Panela Velha. É um metodo que funciona conosco, esta imersão coletiva para produzir música é sempre muito proveitosa.

Volto para uma passagem de “Hotel Rodoviária” sobre o Natal em que Jim da Silva se atraca com um leitão com unhas e dentes, e Papai Noel dizendo “a cerveja sempre acaba porque a sede tem que continuar”. Já que estamos às vésperas do Natal, pergunto como é sua relação com esta data?

Nossa, que difícil… (pausa) Mas quem tá na chuva é pra se molhar! (gargalhadas). A gente sabe que o Natal é um período totalmente suspeito, essa coisa do comércio, presentes, tem essa pretensão de tentar comover para consumir etc… Mas acho bonito a gente se jogar nessas ideias mais bregas, eu acho que a gente não precisa levar o Natal tão a sério, é mais como um carnaval. Eu só consegui resolver minha historia com o Natal quando coloquei “U” no final, chamando de Natau, só de sacanagem mesmo. Se carnavalizarmos o Natal com U não ficaremos mais de bode com esta história toda!

Todo Mundo Tá Pensando Em Sexo – Porcas Borboletas from oruminante on Vimeo.

Larissa Busch, a magnética

Rio de Janeiro, 19|12|14

[Tiago Petrik]

Larissa Busch tem 19 aninhos – é a caçula do IV Concurso Anual do Retrato Ideal e Otimista da Carioquice Autêntica (Carioca 2015). E ela é da Barra. “Mas não escreve isso, senão vão fazer bullying comigo!”. Desculpa, Larissa, mas foi irresistível. Pessoal, não façam bullying com a Larissa! Sem qualquer menosprezo às demais candidatas, todas apaixonantes, Larissa é a típica carioca gente boa, daquelas de almanaque. Tão novinha, possui um magnetismo de certa forma inexplicável. Mas vamos tentar:

Larissa é cria do Colégio de Aplicação da UFRJ. Isso talvez ajude. Como toda CAPiana, é muito orgulhosa. “Tenho um amor gigante pela escola, faz muito parte de mim, é estranho”, conta. Ela era do Grêmio Estudantil, daquelas que falavam no microfone e frequentavam congressos. Lá aprendeu, entre tantas coisas, que decisões podem ser compartilhadas, e assim é muito mais legal. Tinha ótima relação com colegas e professores. Este ano, começou a cursar Comunicação Social na UFRJ e, adivinha?, também está apaixonada. “Tô curtindo muito, apesar do início ser bastante teórico, mas sinto que achei meu lugar no mundo”, referindo-se ao campus da Praia Vermelha.

O mundo da Larissa tem praia, muita praia. “Vou todo dia”, conta. “Sempre fui de acordar cedo pra aproveitar o dia”. Pratica esportes compulsivamente: é fera na altinha, corre 4 Km em 25 minutos (a meta é em breve chegar aos 10Km e disputar provas de rua), fez aula de futevôlei, ali na Vinicius, bamboleia (“faço parte de um coletivo, o Movimento Bambolê RJ, que hoje tem umas 300 pessoas, que se reúnem no MAM ou no Arpoador”), fez Muay-thai (“mais pelo exercício”), acrobacia aérea e está se aperfeiçoando nos patins – é a feliz proprietária de um modelo antiguinho de quatro rodas, de botinha branca. “Sou hiperativa com esportes”, ela reconhece.

Engraçado é que, mesmo assim, a Larissa é conhecidinha na cena noturna. Ela trouxe pro Rio a festa Putzbrilha, que já existia em Uberlândia. Ambientada com luz negra, distribui tinta neon pra galera se pintar. Na Cidade Maravilhosa, a festa chegou a reunir 3 mil pessoas, nas edições realizadas no Espaço Rampa, em 2013. As últimas foram pro seleto público de 500 pessoas que cabem na Fosfobox. A próxima, anota aí, é dia 3 de janeiro, na La Paz. “A chave do sucesso de uma festa é a escolha do público”, dá a dica. Por conta da festa, que começou só produzindo, aprendeu a discotecar. Toca de tudo, depende “o que a pista tá pedindo”, diz. “Mas na verdade, nem sou tão festeira assim”, assume.

Mas, peraí, o que dizer de uma pessoa que anda com purpurina na bolsa? “Qualquer momento pode ser o momento da purpurina, por isso levo comigo. Às vezes, porque encontrei um amigo na rua e fiquei feliz, aí passo”, diz, como se fosse a coisa mais natural do mundo. “Por isso gosto tanto de carnaval: é a época do ano em que você pode esbarrar nas pessoas com purpurina e ninguém vai ficar chateado”. Agora fala sério: quem é que iria ficar chateado de esbarrar com a Larissa por aí?

Pra votar na Larissa, você já sabe: é só dar uma passada amanhã na Casa Ipanema (Rua Garcia d’Ávila, 77, Ipanema) das 15h às 18h e doar roupas e brinquedos, novos ou usados, mas em bom estado, e dizer que está fazendo a doação em nome dela. Tudo o que for arrecadado será entregue à Associação Lutando para Viver. Cada item doado vale 10 pontos no concurso, conforme já explicamos aquiPra conferir as outras candidatas, dá um pulinho no perfil da Luna, da Lívia e da Joana!

 

 

Fotos: Tiago Petrik

Fotos: Tiago Petrik

Joana Braz, a carioca d'além-mar

Rio de Janeiro, 19|12|14

[Tiago Petrik]

No carnaval de 1984, Joana Braz Ferreira rodopiou à beça. Mas não lembra de nada: ainda estava na barriga da mãe, que participava da ala das baianas da escola de samba Trepa no Coqueiro. Não conhece? É a mais popular de Sesimbra, vila portuguesa com cerca de 50 mil moradores, terra dos avós de Joana. Ela é carioca. Não de fato – porque afinal nasceu em Lisboa –, mas de direito. A tatuagem do calçadão de Ipanema, que carrega no pé desde 2006, quando aqui aportou pela primeira vez, não a deixa mentir. O Rio, pra ela, é sua casa. E nada mais justo que, na comemoração de 450 anos da Cidade Maravilhosa, uma portuguesa se junte à festa na condição de candidata a representante da carioquice.

A Joana você já conhece aqui do RIOetc. A gente não se cansa de fotografá-la: está sempre linda e com um sorriso no rosto. “O Rio combina com abraço. Adoro isso”, ela diz. Também já adotou outros hábitos locais, como chegar atrasada – o que faz com uma certa dose de culpa – e não levar a sério o famoso “vamos combinar” – o que faz totalmente sem culpa, “porque a intenção genuína é essa”. Como se sabe, é o típico desaforo que carioca nenhum considera realmente um desaforo.

“Como toda portuguesa, vemos muitas novelas brasileiras, e isso sempre me gerou muito desejo de vir ao Rio”, lembra. Da primeira vez, veio com uma amiga, passar férias; em 2008, fez intercâmbio de um semestre na PUC, onde cursou algumas disciplinas de Arquitetura; e em 2011, enfim, chegou de vez. Tinha acabado de passar um ano em Bali – outro lugar no mundo em que ela se sente em casa. “Quando vejo alguém fumando Gudang Garam, chego a sentir que estou lá”.

Mas seu caso sério é mesmo com a Cidade Maravilhosa. Foi aqui que conheceu seu outro amor, o artista plástico Peu Mello. Ela foi penetra numa festa na casa dele, no Joá. Tinha lista na porta, e ela entrou com o nome de uma amiga. “Eu quase não fui”, ela lembra. Pouco tempo depois, tinha se mudado pra casa/estúdio/ateliê onde há pouco rolou o Mimpi. Ano passado, decidiram se casar. O prazo de permanência de Joana no país já tinha se esgotado, e a cerimônia deve ter sido divertidíssima. Nem Joana nem Peu compareceram. Foram os pais do noivo que os representaram no cartório, enquanto os pombinhos voavam em direção a Lisboa. “Viajei de branco, porque afinal eu era a noiva”, diverte-se. No dia seguinte, foram à igreja lisboeta de Santo Antônio – o santo de Peu – pra fazerem votos entre si.

Embora Portugal esteja lá, e isso seja um fato, Joana se diz “cada vez mais apaixonada pelo Rio. Tenho medo de um dia não viver mais desse jeito, no meio da natureza”. O momento profissional também é especialmente feliz. Embora tenha se formado em Design de Interiores pelo Instituto de Artes e Design de Lisboa, a moda a convocou, meio por acaso. Hoje trabalha como assistente de estilo da Mocha, neomarca superbacana que tem servido pra candidata a Carioca 2015 como “uma escola”. “Estou muito feliz de brincar com moda”, diz ela, que também é responsável pelas produções de streetstyle da FYI. Joana também está muito a fim de brincar com o mar, de forma mais profunda. Planos para o ano novo? Aprender a surfar. Pra quem atravessou o oceano pra encontrar seu lugar no mundo, a tarefa parece fácil. A gente bota fé.

 

Pra votar na Joana, você já sabe: é só dar uma passada amanhã na Casa Ipanema (Rua Garcia d’Ávila, 77, Ipanema) das 15h às 18h e doar roupas e brinquedos, novos ou usados, mas em bom estado, e dizer que está fazendo a doação em nome dela. Tudo o que for arrecadado será entregue à Associação Lutando para Viver. Cada item doado vale 10 pontos no concurso, conforme já explicamos aqui

Fotos: Tiago Petrik