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A viagem de Letuce para o além

Rio de Janeiro, 02|12|16

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Fotos: Ana Schlimovich

[Ana Schlimovich] *

Odiamos finais. Conseguimos lidar muito bem com os finais das coisas que queremos que acabem mesmo: estúdios, tratamentos, provas, litígios, desentendimentos. Mas com os outros finais a gente tem dificuldade, a gente estica, disfarça, não aceita, sobretudo, não aceita. Mesmo sabendo que tudo acaba um dia, somos muito ingênuos nessa hora. Finais não têm boa fama, se parecem com aranhas: difícil encontrar alguém que goste ou não sinta medo.

Foi a última vez que Letuce se apresentou e é a primeira que escrevo uma crônica em português. Para começar a desmitificar: finais sempre namoram começos. Também foi a minha primeira viagem para Paquetá. Eu, que amo ilhas, que escrevo sobre viagens, nunca tinha feito essa travessia. Era para se materializar assim, numa trilogia extraordinária. Mas com Letuce sempre é meio mágico, extraordinário. A única vez que fui pegar uma praia em Copacabana, porque sempre prefiro Leme ou Ipanema, foi com a Letícia, e essa tarde o mar parecia o Caribe. Nunca mais.

Então Paquetá per se talvez não fosse o suficiente, precisava de um Acontecimento, e escrevo essa palavra com maiúscula porque a música da Marina Lima que eles interpretam é umas das minhas preferidas. Essa e “Tuna Fish”, e “Todos os Lugares”, e “Muralha da China”, e “Potência”, e “Lugar para Dois” e “Horizontalizar” e poderia continuar até nomear o repertório inteiro dos três álbuns. Acho que nunca tinha gostado tanto de uma banda, nem conhecido as letras de todas as músicas de cabeça, menos “Serieuse Affair”, que é em francês. E acho não, tenho certeza de que nunca fui tão groupie, nem me emocionado tão absurdamente com músicas, nem bebido saquê com a cantora da banda que mais gosto.

A primeira vez que vi o Letuce foi no Circo Voador, 2010. Eles abriram para o AIR e eu estava fotografando a noite dos franceses para o RIOetc. Havia luzinhas trepando pelo microfone, tinha o maiô azul dessa mulher alta, tinha o guitarrista da mesma altura. Havia uma parte em que a Letícia Noaves passava por debaixo da guitarra e dos braços do Lucas Vasconcellos – que não deixava de tocar –, o abraçava, apoiava o rosto no ombro dele e cantava. Eu quis pra mim, confesso, essa sincronia de amor e arte.

A segunda vez foi na casa deles. Fui entrevistá-los para uma revista argentina. Era domingo de manhã, e o Lucas abriu a porta do apartamento do Rio Comprido de roupão preto. Morri de vergonha. Pensei que acabavam de acordar, que tinham esquecido. Mas depois vi a Letícia de roupão lilás e batom vermelho. “Pensamos que seria bom fazer as fotos na cama, com os instrumentos”, falou a Letícia. Estou vendo agora a gravação daquele dia, no quarto de recém-casados: passarinhos cantando fora, crianças brincando no jardim do condomínio, uma dúzia de instrumentos espalhados na cama. Foi um diálogo íntimo, imaturo da minha parte talvez, por se tratar da minha primeira entrevista no mundo da música e do vídeo. O microfone tapa o Lucas o tempo todo! Mas as fotos ficaram boas e a matéria também.

Depois os vi na Casa da Matriz, no Jockey Club, num bar novo da Lapa que já não existe, num piquenique de Natal na Lagoa, no Beco das Garrafas, No Ocupa Minc, no Teatro Odisseia, no lançamento de “Estilhaça” no Circo Voador, onde, outra vez, um feitiço tomou conta do espaço e deixou todos os que presenciamos aquilo extasiados por dias e dias e dias até o domingo em Paquetá.

Havia o medo do clima. Se chovesse, não teria show. Mas o domingo estava radiante, verão. Tentei combinar com amigos para ir junto. Não deu certo. Então fui com a minha bike, rodei o Aterro do Flamengo, os abricós-de-macaco floridos, as pessoas na praia, o sol fritando, um grupo ensaiando percussão, outro tocando samba, mais um batucando. A música salva o Rio. Podemos reclamar da violência, da desigualdade, dos preços malucos, dos atrasos, dos ônibus que circulam como monstros pela cidade, das águas podres da Baía de Guanabara, mas da música que diariamente-toda hora-em qualquer parte- produz o efeito de um Rivotril em todos os que moramos aqui, não tem como reclamar.

Por um minuto não perdi a barca. Sorte de ter o bilhete único. Não sei como será essa viagem diariamente, mas esse último domingo de novembro a barca estava, no mínimo, estilosa. Encontrei a Aline, que conheci porque ela também é fã de Letuce, e entendi que era pra ir sozinha mesmo, pois não o estaria. E aqueles outros amigos, mesmo queridos, talvez não entendessem. O barco era nosso. Fizemos a travessia.

A ilha encantada

A ilha e o baobá. Abraçar o baobá. A ilha e as flores, os flamboyants vermelhos, as ruas de terra sem barulho de carro, as canoas na praia, as pedras arredondadas no horizonte e depois os recortes piramidais das serras, verdes. As bicicletas, a Casa de Arte e sua varanda estilo Gaudí. A senhora que mora há vinte anos e diz que na baía tem siri. E na baía tem siri, sim. Eu vi. O coreto embaixo da figueira centenária. Os encontros inesperados. Os prováveis desencontros e novembro que propõe transmutar. A luz vai ficando dourada e a banda começa tocar “Todos Querem Amar”.

Ainda me lembro do dia em que li o texto onde a Letícia anunciava que o casamento tinha acabado. Eu estava no quarto de uma pousada em Valdivia, no sul chileno, com o namorado, no cume da paixão. Aquilo me abalou e me fez admirá-los mais ainda, se expondo. Era o cume da coragem dessa banda que extrapola da música para a vida. Um barco de autenticidade no mar dar aparências. Oxigênio. E amor, o amor da vida real, esse que sabe que “Ninguém muda ninguém”.

O maiô verde da mulher alta combina com a cor do besouro que leva prendido do lado do coração e a tartaruga tatuada no ombro direito. Com o verde do anel, da pulseira, da purpurina no chacra da garganta e do terceiro olho. Com o teto do coreto e as folhas da figueira. Cantamos todos. Todos sabemos as letras. Na banda estão o Fabio Lima no baixo, o Arthur Braganti nos teclados e o Marcelo Vig substituindo o Thomas Harres na bateria. Letícia e Lucas se sentam na mureta do coreto e fazem um dueto com três músicas dos tempos do namoro, do primeiro disco, “Plano de Fuga Pra Cima dos Outros e de Mim”. E esse nome faz hoje tanto sentido.

Letícia desce do palco e recebe as flores da Aline. Eu vi a Aline pegar o galho da buganvília que estava sendo mutilada na frente da casa que a abrigava. E vejo a Aline oferecer as flores fúcsias para a Letícia. Recebe também abraços, beijos, cantadas e rodamos num trenzinho coletivo em volta do coreto enquanto cantamos “Lugar para Dois”. E isso também faz sentido hoje porque essa banda deu lugar para muitos, para cada vez mais. Nos shows deles eu jamais me senti estrangeira.

Já pararam para ouvir as letras? Poesia. Um chute na cara. Uma sacada espetacular. Palavras que ecoam na mente pra sempre. Uma lição. Não fosse Letuce eu não saberia o que é “bacurinha”, “maciota”, “mirambolância”. Mas não são apenas as letras, nem as melodias geniais que as acompanham. Precisa ver Letuce ao vivo. É tão prazeroso quando artistas preenchem absolutamente todo o espaço que lhes é dado. A banda de los muchachos é terra fértil para a Letícia brincar. Uma benção, pra quem olha, que essa cantora seja também escritora e atriz. Dá pra ver nas falas entre as músicas, que ela diz que são muitas, e nós celebramos. E no corpo “que parece um bicho”. Livre. Brincalhão. Hermoso. E tem mais. Foi graças às postagens dela no Facebook que eu soube da existência do Chacal, da Alexandra Lucas Coelho, da Ava Rocha, do astrólogo Dimitri Camiloto e das aulas de kundalini yoga no Aterro.

Pessoas choram, pessoas riem, pessoas dançam, filmam, fotografam, cantam, e quando digo “am” é “mos”. O show é assim porque os oito anos de banda foram assim, intravenosos. E a gente sente tudo. “Quando me perguntam com que eu trabalho, já posso dizer que é com intimidade.” Escreveu a Letícia post-celebração da finitude. Pois é.

No fim, no que parecia o fim da apresentação, uma fila de mãos esticadas para o céu aguardam o mergulho na frente do coreto. Letícia enfia uma máscara com flores fluorescentes, sobe na mureta e se lança de costas num colchão de amor.

Cai a noite e como uma grande família depois de um piquenique de domingo, voltamos ao Rio na última barca. Ocupamos o andar de cima. A Letícia e o Lucas sentados no balcão do bar e todo mundo em volta. Todas as músicas que não tocaram em Paquetá são apresentadas nesse Navio Pirata. Sem repetir nenhuma. Rompemos águas, manjamos perene, estilhaçamos juntos e ascendemos num plano de fuga para o além.

****

-Letícia, vou fazer um vídeo com as coisas que filmei. Quer escolher uma música?

-Hum… Animadinha, será?

-Animadinha então

A viagem de Letuce para o além from Ana Schlimovich on Vimeo.

 

* Ana Schlimovich é fotógrafa e “cronista de viagens”, e em 2017 vai facilitar um workshop sobre o tema, através do RIOetc. Aguardem!

Novos ares

Rio de Janeiro, 02|12|16

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Fotos: Victor Ronccally

@vanessatguerra

Sabe essas viagens que mudam nossa vida completamente, no maior estilo “Comer Rezar Amar”? Pois bem, a Vanessa Guerra, taurina, pode não ter ficado taaaanto tempo viajando, mas uns dias de férias em Berlim fizeram um efeito e tanto! “A viagem mudou a minha cabeça, principalmente no que dizia respeito à qualidade de vida. Quando voltei abri meu horóscopo e ele falava que 2016 era o ano de concluir questões, fechar ciclos e se preparar para mudanças”, conta. Não deu outra: a Vanessa aceitou o desafio de assumir o marketing da marca feminina da Reserva, a Eva, isso depois de seis anos na Farm. E as mudanças não pararam por aí! “Me mudei do Jardim Botânico, onde dividia o apartamento com duas amigas, para o Humaitá, onde agora moro sozinha. Ou melhor, com meu filho recém chegado: um filhote de galgo, cheio de energia, que se chama Baleia. Parece que a astróloga do site tinha razão!” Ô, se tinha!

Novos vôos

Rio de Janeiro, 02|12|16

2016-11-30_moda

A coluna Passarinho, do ilustrador Daniel Gnattali, hoje está um pouco diferente: a ilustração aqui de cima é só a primeira de uma série que estar por vir. A ideia é explorar a questão “verde” (mas também estar ligado à moda). O título, portanto, é só uma sugestão. Afinal, esse passarinho tá alcançando novos vôos – e vem coisa boa por aí